OS HEBREUS, O ISOLAMENTO SOCIAL E O COVID-19

Autor: Pr. Josias Alves da Costa1



A história dos hebreus é por demais interessante do ponto de vista sociológico. Em êxodo, logo no seu inicio - capitulo 1, encontramos as famílias oriundas de Jacó, patriarca, sendo contadas e entrando voluntariamente dentro do Egito. Mais tarde, com a chegada ao poder de um novo rei, eles tornam-se escravos e após período longo de escravidão, aproximadamente 400 anos, são levados por eventos miraculosos, sob a custódia de Yaweh e Moisés, para o que seria sua liberdade das mãos dos opressores.


O ponto sociológico diz respeito, essencialmente, à formação do povo que teve como base Abraão, Isaac e Jacó, este último responsável por gerar os progenitores das tribos. Diz respeito, também, sobre a migração em que os povos nômades viviam naquele período e por fim, apresenta uma experiência da vida comum com outras nações.


A estada dentro do Egito trouxe ao povo a primeira experiência de escravidão. Eles ainda não sabiam como era viver sob o domínio de outros povos, até então, suas experiências tinham sido de dominar e não de serem dominados. Basta lembrar que seus avós, Abraão (Gn 14, 8-19) e Isaac (Gn 16), haviam vencido, basicamente, todas as batalhas contra os reis e possuído suas riquezas e terras.


Na vida como escravos eles precisaram adaptar-se ao estilo de vida que cada governante e povo da terra ofereciam. Neste estágio dentro do Egito, eles perceberam que a escravidão acompanhada da opressão não permitia viver e muito menos seguir adiante com seus propósitos de vida. É nesse ponto que aparece Yaweh, Deus próprio deles, para lhes propor uma alternativa de libertação e um novo estilo de vida: liberdade em isolamento ou distanciamento social.


O plano era simples: Moisés seria o representante do povo perante o faraó e perante Yaweh, assim os eventos miraculosos dariam a liberdade que tanto eles almejavam. Proposta aceita, segue-se então a segunda fase – o isolamento social, o deserto seria sua morada. Ficaram sem entender muito esta nova situação, haja vista a saudade dos banquetes egípcios que participavam, nem sempre, mas participavam.


No deserto, em seu isolamento das outras nações, Yaweh tinha o objetivo de ensiná-los a viver em família, viver com Ele e sobreviver em sua dependência. Para isso, ele aproveitou a escravidão associada à opressão em que eles foram submetidos dentro do Egito (narrativa descrita em Êxodo).


O mundo do século XXI parece experimentar um novo tipo de deserto, um tipo comum de isolamento social, mais próprio a esta geração. À semelhança dos hebreus, Deus vinha tentando contato com seu povo a muito e não conseguia, porque a vida parecia boa. Da mesma sorte, atualmente, Deus vem tentando falar com seu povo e não tem obtido resposta razoável em seus corações.


No passado, quando os hebreus experimentaram da vida farta dentro do Egito, esqueceram-se de onde saíram e da dependência exclusiva de Deus. Hoje o povo se esqueceu de onde estavam e já não dependem mais exclusivamente de Deus. É um resgate das experiências do deserto no mundo do século XXI.


O mundo moderno distanciou os cristãos uns dos outros e de Deus, mesmo parecendo perto e buscando a Ele, estamos distantes. Sua Palavra já não promove mais libertação e mudança do comportamento, os cultos já são regados a ajuntamentos sociais e quase nunca com conceito de verdadeiro adorador. As relações com Deus são baseadas na troca e na benção que Ele pode dar, quase sempre envolvendo riquezas e status.


Os governantes do mundo devem se preocupar mesmo com a economia, são suas tarefas iniciais: promover o bem estar social da nação. O que não deveria fazer parte da conta seria o próprio povo de Deus valorizando as riquezas do mundo mais do que a Ele próprio. Cabe lembrar que foi na questão econômica (Gn 1.14) onde os hebreus foram oprimidos pelos egípcios. Yaweh não se agradou disso e pesou sua mão sobre os opressores retirandolhes a economia e mais tarde tirou os trabalhadores escravos. Como consequência, os egípcios foram punidos e os hebreus receberam a alforria de Yaweh para consertarem suas vidas e seus pensamentos diante dEle.


Neste caso, o processo aqui é parecido. Tanto o povo no passado, como o povo no presente valorizam mais as riquezas e o bem estar social do que a própria experiência com Deus. Naquela época, Yaweh levou o povo para o deserto, para viverem em suas tribos. Hoje, Deus encaminhou o povo para suas casas para viverem em família. Considerando isto, a valorização econômica, o bem estar social e o status não podem ser o centro da vida cristã, pois contraria a vontade de Deus para o seu povo. Esses conceitos devem ser promovidos por Deus e não pela experiência com Ele, ou seja, sua vontade deve prevalecer e não a de seu povo.


O isolamento social atual não tem as areias do deserto e muito menos suas temperaturas extremas. Entretanto, numa avaliação simbólica do acontecimento do passado, novamente temos as expectativas da vida em família, dentro de casa, e a vida devocional mais pessoal, forçando a transformação e mudança de vida aos que levam a sério e reflexão pela dependência de Deus e seus favores.


O Corona vírus (Covid-19) está levando a um grande desespero econômico as autoridades mundiais. Em situações assim, a tendência é uma opressão dos que têm mais contra os que têm menos. Seu surgimento no mundo traz entrelaçado nas suas bases: a exploração econômica, a desagregação social, a vida valendo menos que a riqueza, os seres humanos sobrevivendo sem o mínimo necessário nas suas necessidades sanitárias e, a maior de todas as dificuldades, – o homem, mesmo que com alto grau de conhecimento e tendo a sua disposição tecnologias avançadas, não tem o controle de tudo que precisa para manter o seu estado saudável.


A falta de controle e respostas imediatas à carência geral do mundo por uma vacina que possa amenizar as consequências do vírus apresentou a deficiência do homem em produzir solução aos problemas emergenciais. Forçado a agir, tomou medidas que são tão antigas, muito parecidas com as tomadas pelos hebreus em caminho ao deserto. Essas decisões devem, por sua força, trazer a memória o reconhecimento e a maturidade de entender que este mundo pertence ao seu criador e tudo que se faz nele é baseado em Sua vontade.


A frase “fique em casa” foi a mais repetida nos últimos meses, desde o surgimento do vírus. Neste sentido, quero como conceito pessoal reconhecer que foi estreita vontade de Deus, uma espécie de empurrão às famílias para o ajuntamento dentro de casa, às reflexões com mais propriedade de Sua palavra e a dependência d’Ele para a solução dos problemas familiares, sociais e econômicos.




(1) Sobre o autor:

Conselheiro da MGE, Formado em Teologia, filosofia e Letras, mestre em simbologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiânia, atualmente exerce o pastorado na 2ª Igreja Batista do Recanto das Emas – Brasília-DF.

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